quinta-feira, 20 de maio de 2010

Visões da ciência assistindo-se The Big Bang Theory

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Entre os diversos personagens (aqui, um tom de absoluto deboche) que conheci pelo ORKUT, colecionei algumas conceituações, frases, afirmações, análises e opiniões que merecem ser emolduradas, e se bem exploradas, poderiam gerar um sitcom.

Recentemente, somou-se a esta coleção uma maravilha do "acho que entendo disso" (ainda, que na verdade, é bem possível que o autor realmente considere-se uma autoridade no que afirma):

As ciências, incluindo entre elas a lógica e a matemática, que são construídas sobre evidências materiais.

Esta lembrou-me outra, coletada anteriormente:

Como toda ciência, matemática é antes de tudo empírica e o zero é uma dedução visual e geométrica.

Leia de novo, caro leitor. Leia atentamente. Uma das coisas que aprendi ao longo dos anos que os maiores desreferenciados de qualquer campo são exatamente aqueles que dizem as maiores besteiras com os mais elaborados discursos, e as vezes, com as rendas rotas do mais empolado comportamento blasé.

Sinceramente, prefiro algumas das maiores autoridades que conheci nas áreas que atuavam, apresentando coisas complexas, muitas vezes com meia dúzia de palavrões, e ao meio de demonstrações longas e feitas "a sangue frio", com 'giz sobre quadro', percebendo que tinham cometido um erro, retornavam ao ponto em questão e humildemente refaziam seu trabalho.

Seguidamente, em especial no caso da segunda frase "pérola" acima, sempre está disponível alguém realmente habilitado no ramo que despeja um comentário até educado, e mais que tudo útil, como na ocasião, Fernando, um matemático: -Quem leu isso e achou que deveria levar a sério por favor não leve. Esta frase distorce tudo o que significa realmente fazer matemática.

Repetidas vezes tenho divulgado aqui que matemática é linguagem lógica sobre axiomas, não é ciência no sentido popperiano, logo, não pode ser empírica. Aliás, qual seria, após uma demonstração inequívoca, o sentido de se submeter ao falseamento a "hipótese" de que a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa? Ou que a raiz quadrada de dois é um irracional? Teríamos de testar outros números dois, medir outros quadrados? Verificar se realmente são quadrados?




Uma demonstração geométrica do teorema de Pitágoras e um dos momentos gloriosos dos nerds.


Para entender-se estas e outras questões, recomendo boa parte de O Último Teorema de Fermat, de Simon Sigh ou em caso de desejar-se aprofundar, os trabalhos de CHAITIN, atual "papa" sobre a questão da separação definitiva entre Física e Matemática, que é outro ponto que seguida, e deveria dizer insistentemente, levanto.

Mas não sejamos repetitivos e avancemos sobre outros campos.

A ciência, a meu ver, hoje, funciona como um instrumento ótico, como um microscópio, com três objetivas claramente distintas.

A primeira, focada no macro dos macros, o universo como um todo, que usa destacadamente da astronomia em suas hoje diversas ferramentas, que há muito ultrapassaram o apenas visível e tenta entender o maior objeto que se pode tratar no limite do que possa ser examinado para afirmar e modelar como este se comporta. Suas conquistas: já conseguimos dizer como o universo muito certamente é, seguramente como se comportou nos últimos 13,7 bilhões de anos, com exceção de um pequeno intervalo de tempo inicial e muito provavelmente, como se comportará no futuro.

Ainda não entendemos nem como, no íntimo, tal comportamento é causado (a energia escura) e não sabemos exatamente o que seja boa parte do que o compõe (a matéria escura).

Por um linguajar mais metafórico, tocamos como cegos na tromba, nos marfins, nas patas e nas normes orelhas, avaliamos a grossa pele e sabemos exatamente que é um elefante, embora, como cegos, não saibamos nem sua real cor nem quase nada de seu metabolismo, tirando sua temperatura superficial.

Numa linguagem mais matemática ou geométrica, temos um setor de superfície, e podemos afirmar que é uma superfície curva, até que é côncava ou convexa, temos até sua angulação precisa, mas não temos o formato geral do objeto de onde ela foi extraída.

Por estas e outras, é extremamente perigoso afimar-se coisas sobre o "tudo", seja no todo de seu conjunto, seja na totalidade de sua existência no tempo. O terreno da cosmóloga completamente tarada Dra. Elizabeth Plimpton, hóspede recente da dupla principal da sitcom é, pela sua proximidade com a Filosofia, tão escorregadio quanto são suas paixões.

Onde trata-se dos componentes do que julgamos como o tudo, como são as estrelas e os demais corpos celestes, nosso conhecimento já as trata em quase mínimos detalhes, e nos restam poucas lacunas, como por exemplo aformação de planetas ao redor de determinadas estrelas degeneradas, como as estrelas de nêutrons. O terreno da Astrofísica*, o terreno de pesquisa do sedutor indiano (apenas quando bebe) Raj Koothrappali está entre os mais abrangentes e bem estruturados campos da ciência. Exatamente por ele, podemos inclusive determinar com segurança as distâncias das galáxias, exatamente pelo estabelecimento de "velas padrão", com supernovas de tipos específicos, que explodem nas mais distantes galáxias.

*Que repito sempre, deveria se chamar Astrologia, mas outra pseudociência roubou o nome antes - e não devolveu.


Um quasar e o poder de Raj.


Outra objetiva é microscópica, e procura tratar do que seja o "mínimo", até na esperança que com este possamos tratar, simultaneamente com o estudo do que seja o "máximo" e suas relações, o "tudo". A ciência se debruça (quando não pisoteia), até porque dele necessita, sobre a mais concebível e possível ausência de todas as coisas: o que seja o vácuo, o vazio, e de preferência, a caminho do "nada".

Este estudo depende de enormes exercícios de força (energia) para obter o que modelos físico-matemáticos, aquilo que Sheldon, o hilário personagem que claramente tornou-se central em The Big Bang Theory considera que o coloca acima de todos os demais seres humanos. E sabemos que ele demonstraria isso, até matematicamente.

O problema é, que como também repetidamente martelo nas cabeças alheias, a Física é apenas "matematicalizável", como gosto de dizer, mas não é a matemática. A maneira de Sheldon, podemos escrever equações e mais equações em uma lousa, com os mais coloridos pincéis atômicos (este nome sempre me foi engraçado). Estas equações e seus resultados, jamais poderão ser afirmadas como o exato comportamento da natureza, muito menos de sua composição íntima e final.

Como também repito seguidamente, o construtivismo em Matemática como transponível para Física está morto e enterrado, com pás e pás de cal em cima de seu cadáver em Filosofia das Ciências e Teoria da Informação. Estamos na era definitiva do formalismo. Expliquemos isso por outra via, usando de nossos amigos nerds.

Sheldon pode configurar as mais belas, exatas e coerentes equações em seus escritos. Sem a ação experimental de Leonard Hofstadter, em sua opinião o "ser inferior" com que divide o apartamento, ou da física Leslie Winkle, que seguidamente inclusive lhe corrige equações, sem determinado apoio observacional dos amigos astrônomos de Raj, jamais vai poder afirmar que aquilo seja a "verdade" (que é coisa, como lembra Indiana Jones, tratada nas aulas de Filosofia). Assim, a equação perfeita, isolada da evidência, da verificação, de se submeter ao experimental e neste o falseamento, é como belo e poderoso anel, na mão de homenzinho maltrapilho, séculos escondido dentro de uma caverna escura, nem mesmo produzindo sombra alguma.


Teoria pura e experimentação, ainda que em enorme escala, Sheldon e Leslie, duas abordagens não concorrentes, mas complementares.


Da mesma maneira que Sheldon descobriu ao olhar-se segurando um dos anéis do filme de Peter Jackson, quando nos tornamos obcecados pelo círculo vicioso das contruções lógico-matemáticas sobre construções lógico-matemáticas, tornamo-nos monstros, e dos menos temíveis, apenas repulsivos.

As sombras que a física teórica, e qualquer outra ciência, produz, devem ser levadas à luz do mundo e comparadas com os reais objetos e fenômenos que tentam tratar, e se felizes, estabelecem-se como um modelo a ser, pelo menos temporariamente, usado. Mas de maneira semelhante aos habitantes da caverna de Platão, não temos acesso pleno ao que seja realmente a perfeita imagem dos objetos, e muitas vezes, nem de o vermos, como o elefante do cego acima.

O ciclo potencialmente infinito de construção e demonstração de conjecturas e teoremas em matemática, seja a partir de que conjunto de axiomas forem, seja a partir de que lógicas específicas forem usadas é incapaz de garantir que um elétron sob determinada situação irá para a esquerda ou para a direita, ou mesmo se puder fazer isso, não permitirá determinar se nele não há, com absoluta certeza, um outro componente que é o que determina sua massa, e assim interminavelmente.

Para a felicidade dos pesquisadores experimentais, inicialmente em Física, e consequentemente em todas as ciências formais dela decorrentes e dependentes, estamos na era da falseabilidade, de Popper, do Modus Tollens e da "estrutura de afirmações científicas", a maneira de Kuhn.

Em termos mais técnicos, e esta frase poderia ser proferida talvez no almoço por Sheldon (e até para ele), a era de Metafísicas a partir de lógicas sobre sensos comuns está morta e enterrada. Como foi dito brilhante e hilariamente por Leonard para a graciosa Penny, e espero conseguir repetir aproximadamente: -Desde os anos trinta conseguimos desenvolver inúmeras teorias lógica e matematicamente sólidas, mas nenhuma delas conseguiu resolver problema algum.

Mas seguidamente, brotam Sheldons pelo mundo (alguns não tão capazes), com a noção de que a natureza seja matemática, geométrica ou algébrica em si, e que isto basta, esquecendo que ela é natural, e nossas premissas no seu tratamento são apenas postulados científicos a partir de observações de fenômenos, nada mais. O resto, como dizemos, é esperneio de leigos (por mais preparados em física-teórica que sejam, mesmo com a ajuda de Nosso Senhor Jesus Cristo, como deve dizer a mãe de Sheldon).



Já vi quem diga que "matemática pela matemática é um divertimento, e não uma necessidade". Não pode ser afirmada besteira maior. Teorizações em Física, e suas consequentes aplicações em tecnologia e na geração de riqueza, seja expressa na forma como esta for, só são possíveis a partir de formalizações matemáticas puras. Portanto resta esperança para até os matemáticos puros no mundo científico em si, uma tradição do século XIX, dos quais um dos maiores expoentes é Einstein. A Física seguidamente esbarra na ausência de determinadas ferramentas matemáticas, como esbarrou na necessidade do desenvolvimento do Cálculo Vetorial para posteriormente permitir a Teoria da Relatividade. Hoje esbarra em diversos problemas, e exige que os matemáticos "puros", desenvolvam ferramentas para que nos problemas físicos sejam aplicadas.

Sugestão: Na série, Sheldon deveria ter como grande paixão, uma matemática ou filósofa, só para torturá-lo.

Mas o instrumento ótico que descrevi tem uma terceira objetiva, e aqui surge, para a sua vingança, o mais que caricato engenheiro Howard Wolowitz, com sua tonitroante e misteriosa mãe. O terreno dos sistemas multiparticulados, caóticos e intratáveis de maneira exata, fisicista, sheldoniana, e que não são rajnianos para estarem distantes no espaço, não são leonardamente colocáveis nas nossas bancadas para centenas de experimentos, que por sinal, são praticamente todos os objetos e sistemas do mundo que cerca o humano.


Howard, provavemente, segundos antes de ser informado que seu sistema de dejetos falhou novamente.


Por isto mesmo, as grandes empresas de software de planejamento, quando não as próprias empresas de algum porte, sem se falar dos governos, gastam milhões com equipes de matemáticos, somente para aplicações de matemática pura, visando terem ferramentas que tratem nem que seja de maneira aproximada seus problemas, e pouco interessa que na semana que vem, tal modelo tenha de ser modificado, ou mesmo completamente abandonado e substituído de cima para baixo.

A maneira que os engenheiros vêem o mundo é a da aproximação, dos coeficientes de segurança. Não nos** interessa a exata coluna da exata medida que sustente a exata viga da exata laje. Fazemos a coluna umas dez vezes maior que o necessário suportando uma viga cinco vezes maior que o necessário suportanto uma laje o dobro da necessária, pois sabemos pelas nossas equações completamente empíricas, mas que funcionam, que ais cedo ou mais tarde, algum Raj bêbado vai bater na coluna inexata, algum Leonard vai querer um equipamento 50% mais pesado em cima dela e alguma Penny vai querer mudar a decoração.

**Sim, eu pertenço aos "loompa-loompa da ciência", como chama Sheldon os engenheiros.



Ao nosso lado estão os físicos empíricos, de objetos triviais, como os sistemas turbulentos e os diversos fluidos, como os gases, o ar, os ventos, as correntes, os fluxos dos rios (aquelas bobagens que chamamos de águas, esgotos, geração de energia). Aqueles que lidam com calor, que é coisa que sem determinado volume de testes, e este número é enorme, não funciona. Os ferreiros e oleiros da tecnologia, que são os desenvolvedores de materiais, que martelam metais pré-historicamente conhecidos para transformá-los em peças inimagináveis há 10 anos, que insistem na loucura que é transformar algo que o sem visão chama de um tijolo e no máximo um caco de porcelana em um abrasivo incomparável, uma lâmina afiadísima, uma peça praticamente a prova de desgaste ou um supercondutor. Os cozinheiros da ciência, que são os químicos, que a partir de previsões razoáveis, testam e testam, dias e noites a fio, tanto do que se compõe determinadas coisas como compor determinadas coisas que antes não existiam, seja para adicionar à alimentos, eliminar pragas ou uma trivial cura de doença até então não curável. Coisas banais, do nosso dia a dia.

Aqui, junto a nós, colocamos a enorme família dos trabalhadores das ciências biológicas, desde a aparentemente matemática e exata genética até os especializados na biologia de determinado primata superestimado em importância, os médicos, pois a meu ver, não existe ciência mais complexa no todo que a biologia, e por isso mesmo, como diria o grande Mayr, é única.

Pensamos em um mundo funcional, não exato. Somos Kuhnianos por natureza, e pensamos que qualquer comentário sobre Kuhn e citações sobre ferro aqui será uma ofensa, embora pretendemos que o lado bom de sermos práticos, acima de tudo, seja considerada uma virtude.

BAZZINGA!





Alguns anexos

Alguns simpáticos e suaves como os filosofares de Raj quando bêbado, outros aos berros como os da mãe de Howard.





Relatividade e sua aplicação

Durante muito tempo, a Relatividade, mesmo como teoria física pura, só foi uma curiosidade e fonte de tratamentos sem grandes aplicações práticas, como a Cosmologia.

A sua aplicação mais evidente, nos reatores e armas nucleares, vinha de uma consequência do equivalente energia-matéria, da Relatividade Geral. Mas isto não era uma aplicação em si da relatividade, muito menos, da Relatividade Especial, ou, como até einstein gostava, "Teoria dos Invariantes", por causa de seus dois postulados.

Mas os GPS não funcionam sem correções relativísticas, logo, não existe navegação hoje, sem a Relatividade a corrigir defasagens espaço-temporais de longa duração a altas velocidades. Mas a relatividade, lá na sua origem, só existe graças ao desenvolvimento do Cálculo Tensorial.

Logo, por estas e muitas outras, sem matemática pura, sem física. Sem física, sem tecnologia. Sem tecnologia, sem produção de bens e serviços.




Vácuo


Não existe o que seja vácuo absoluto em Física a partir de um determinado nível de tratamento.

Mesmo mais absoluto vácuo de partículas mássicas ou bósons está sempre preenchido por campos, predominante e claramente o gravitacional, visto que estamos no universo, obviamente.

Em Gravitação em Loop, o espaço vazio, independentemente do campo, está sempre repleto por um grafo espaço-tempo. Mas pouco interessa neste momento esta teorização.

Zero não é nada. Vácuo não é vazio. Vazio ainda sim, não é o que possa se chamar de nada. Aliás, nem mesmo é um espaço euclidiano. Aliás, mais um conjunto de motivos para se entender que Física não é Matemática nem Filosofia e vice versa.

Tanto não é, que o espaço-tempo não pode ser tratado euclidianamente, em divisão infinitesimal por pontos. As propriedades do vácuo, que implicam nas unidades de Planck, caracterizam o vácuo com propriedades de mínima partição, e isto guarda íntima relação com as teorizações da gravidade em loop.


Campo magnético
 
Matemática pura e suas aplicações

Estude-se Economia, Engenharia, ou Administração, profissões que são as principais em termos de ganhos para qualquer ambiente coorporativo ou empresarial e vamos ver se não precisa-se matemática pura sendo ou tendo sido desenvolvida na retaguarda.

Matemáticos "puros" são chamados para resolver problemas de desenvolvimento de embalagens, estruturas, distribuições estatísticas e logística, e disto tem muitas vezes de desenvolver novos campos em matemática.


Empirismo em matemática

Soluções por "empirismo" em matemática são "lindinhas", "quase umas Pennys", mas não resolvem, a depender do sistema, coisa alguma, pois há sistemas de equações, por exemplo, que são instáveis para soluções por Cálculo Numérico, e há problemas, como o "problema do caixeiro viajante" (ou "problema do carteiro") que se levam em conta todas as variáveis, são até isolucionáveis em tempo prático (na verdade, dentro da própria existência do planeta Terra e dos Sol).

Logo, mesmo para sistemas que tenham de ser tratados por cálculo numérico, "chutes", aproximações, etc, de forma alguma soluções por lógica, algebrizações, novas ferramentas matemáticas podem ser desprezados. O método de "La Cochambre" ou método NASCO*** torna-se necessário.

*** Acochambrar, em francês amacarronado, e NAS COxas.

Daí a constante necessidade de se demonstrar novos teoremas, em tentar burlar estas limitações práticas, que é, em suma, a busca de ferramentas mais eficientes, quando não, as únicas que possam ser eficazes.

Existem os que julgam que por cálculos "experimentais", como por exemplo com uma calculadora possa se demonstrar, por uma sucessão de números que se leve a deduzir/induzir uma demonstração inequívoca de uma conjetura, a proposiçao de um teorema.

Aqui existe um erro comum em quem confunde cálculo numérico e seus empirismos com o que seja Matemática pura e seus teoremas. Mesmo uma série eternamente realizada de "experimentos" em cálculo (seja a mão, calculadora ou sofiticados computadores) jamais chega-se a produzir uma conclusão definitiva sobre uma conjectura matemática.

Exemplo: podemos conjecturar, como parece que o fez num segundo momento Fermat sobre a questão de soluções inteiras para x^n+y^n=z^n para n>2 e testar números sem fim nesta proposição.

Mas jamais chegaremos a concluir que definitivamente jamais haverá ou não uma solução em inteiros que atenda a tal equação diofantina. O máximo que concluiremos é que até o momento, não encontramos nenhuma solução.

O mesmo se dá para hoje ainda em aberta conjectura de Goldbach. Testamos enorme quantidade de números pares e concluimos que sempre são soma de dois primos, mas ainda não podemos dizer, obviamente, que não existe número par que não seja formado pela soma de dois primos.

Voltando à conjectura de Fermat, anteriormente chamada até erroneamente de "último teorema de Fermat", hoje melhor chamado de Teorema de Wiles, é conveniente lembrar que Gerd Faltings, lá por 1983, demonstrou que a conjectura de Fermat, para n>2 apresentaria, conclusiva e inequivocamente, finitas soluções (note que finitas, não infinitas, mas não "nenhuma"). E tal foi um feito à época.

E notemos que não por cálculo numérico, que como vimos acima, não prova lhufas alguma.

Como se diz: demonstração é o ídolo frente o qual o matemático se flagela.

Solucionar equações ou encontrar valores interessantes em funções, ou valores de questões de interesse físico, é outra coisa.

Os pares de primos na conjectura de Goldbach.

Sobre números na natureza

Uma pergunta que sempre deve ser feita até a físicos, que insistam que a natureza é matemática e intrinsicamente numérica é:

Qual o valor de comprimento de um metro, numericamente?

Note-se que não queremos saber quanto é o metro comparado a outras unidade de comprimento, como oscilações de um fóton, comprimentos de onda, diâmetros de átomos, etc.*(4) Queremos saber qual o número que o representa.

Sobre isso, devemos lembrar que medida alguma possui representação absoluta em um número puro, mesmo as Unidades Naturais.

Medidas, são pois, sempre comparações. E afirmamos mais:

Na natureza não existe número, nem mesmo o que seja quantidade, a pleno.

Basta entender-se implicações e evidências da Mecânica Quântica, ou fenômenos triviais no quântico, fundamento inclusive da própria origem do universo, como a Produção de Par.

*(4)Note-se, que aqui, sempre se comparou um comprimento, não diferende de meu braço, com outro, ainda que por aí, na natureza.



O metro original e monumental e o comprimento de onda, dois padrões de comprimento, mas jamais um número em si.


Mais uma vez, referenciemos o brilhante trabalho de Chaitin e outros, para quem quiser entender o "nível da arte" de separar-se Física de Matemática hoje:

http://www.cs.auckland.ac.nz/~chaitin/

E destaco:

http://www.cs.auckland.ac.nz/~chaitin/sciamer3.pdf

Não contentes em expressarem-se sobre, digamos, vigas exatas e exatamente por isso inexistentes na natureza, os patologicamente atraídos por certezas em lápis e folhas de papel tem julgado que podem tanto provar suas fés como provar que ninguém as pode possuir de alguma forma*(5).

A respeito disso, faço minhas as palavras de Luc Ferry, filósofo, professor universitário e ex-ministro da educação da França:

- Eu sou descrente, sou agnóstico, mas o ateísmo militante sempre me pareceu absurdo. Primeiro, porque respeito as religiões, mas também porque não se pode evidentemente demonstrar a inexistência de deus mais do que a sua existência.

*(5) Aqui, cuidado, pois quem me conhece sabe o tirano que sou com afirmações de fé que tratem de determinadas definições, diria freudianas, de divindades, especialmente, as dos diversos criacionistas, que tentam colocar deus desde a sua própria biologia até a conecção entre sódio e cloro para produzir sal de cozinha, quanto mais a de seus mais antigos ancestrais, quando não, como ferramenta até para que a mulher de outros tenham os dedos cortados quando pintarem as unhas.

Atente-se para o evidentemente, pois a impossibilidade de demonstração da inexistência da divindade é demonstrável. Mas novamente cuidado, pois a existência de determinadas divindades, como a judaico-cristã dos criacionistas, que nem propriamente é a dos judeus nem dos cristãos em geral, demonstrável como uma tolice completa, quanto mais seus próprios feitos.

Somado a isso, alguns personagens pitorescos, e matemática e física não além do secundário, e mesmo alguns, com forte formação acadêmica, tentam, com idéias em papéis, as vezes com erros já nas primeiras linhas, fazerem considerações sobre desde a objetiva do macro do universo, sua origem única e última, até as mais recôndidas intimidade da matéria, no que eu considero que é o pior tipo de pseudociência que existe, que é aquela que para ser percebida como tal, necessita ser mais cuidadosamente examinada.

Sobre os gênios com idéias velhas e inúteis julgando-as novas e brilhantes, já escrevi:

Fantástico como surge um grande inventor ou um filósofo a cada minuto, que exatamente pela sua ignorância específica, pode contar com a irresponsabilidade e cair no ridículo de tentar construir um moto contínuo ou provar a divindade, apesar dos metros de livros que nunca leu, e séculos de trabalho sério e honesto mostrando o contrário.

Pobres diabos que assinam em baixo da própria soberba infantil.

Portanto, antes de fazerem afirmações e trazerem suas tolices aos nossos olhos e ouvidos, os gênios incompreendidos devem revisar seus conceitos.




Limites e a cruel vida dos químicos

Fui aluno de um mestre brasileiro da Físico-Química, Willy Günther Engel, que foi um dos raros químicos com trabalho puramente teórico que conheci. Ele trabalhava com um tratamento a maneira de Newton, da Mecânica Clássica, da Cinética Química, que é o campo da química que trata desde a velocidade em que se dão reações químicas tão lentas como a corrosão dos melhores aços, até o tipo de combustão especialmente veloz dos mais potentes explosivos, que ocorre internamente às moléculas envolvidas, assim como as triviais reações como a neutralização do hidróxico de sódio com o ácido clorídrico, em meio aquoso, produzindo aquele exótico sal que conhecemos como cloreto de sódio, o detestado pelas moças que sofrem de retenção de líquido, o sal de cozinha.

____NaOH + HCl → NaCl + H2O

Esta reação é tão rápida no meio aquoso que sob certo aspecto, enfrentaria em velocidade as mais violentas explosões. Falta só o detalhe da energia desprendida. Mas sem problemas, pois a combustão de um tanque "maracanã" de refinarias de petróleo, aqueles com até 70 metros de diâmetro, produz tanta energia como algumas reações nucleares, apenas, não no mesmo tempo a caminho do instantâneo.

Cinética química é um campo dos mais difíceis de se afirmar coisas "duras", inflexíveis. Por isso mesmo, quando nós, engenheiros químicos projetamos um sistema de reações e operações físico-químicas (como as de separação, como a destilação), recomendamos que se inicie com uma escala pequena, as plantas piloto, pois temos extrema confiança que não se pode ter plena confiança nos modelos da cinética química e da físico-química, e sempre acontece algum imprevisto, alguma mudança de variáveis intratável denro de um exatismo matemático.*(6) Numa experiência própria, tem sempre uma tubulação, que naquela escala, esfria e permite a cristalização de um determinado fluido, entupindo e travando um sistema inteiro, ou, com notório caso, quando entra o humano, sempre algum estagiário aperta na hora errada o botão errado, muda durante instantes uma temperatura, e onde era para acontecer determinada reação, acontece outra, e onde era para apenas haver a modificação de um gás, passa a haver a formação de um polímero, um plástico no linguajar dos reles mortais que não são engenheiros químicos e químicos, e um reator de centenas de milhares de dólares vira uma enorme rolha de polipropileno.

*(6) Tal como meu mestre Willy fazia, é conveniente usar modelos clássicos e confiáveis sobre o comportamento de experimentos, adaptá-los a novos campos, e não propor modelos completamente teóricos e depois ver se com aquilo se faz o mundo obedecê-los. Por outra via, como ironizou Leonard, os físicos arranjam soluções perfeitas para a criação de galinhas, infelizmente, elas tem de ser esféricas e se encontrarem no vácuo.

A principal razão para isso é que, por exemplo, em reatores químicos, não existe "pistão", que é como denominamos uma massa teórica de reagentes se deslocando no espaço de um tubo de espessura infinitesimal, não existe deslocamento de fluido que não possua turbulência, não existe mistura que realmente seja perfeita e ão existe aquecimento ou resfriamento que não apresente alguma ineficiência e que não produza regiões um tanto desastradas. Resumindo, não existe reator ideal, só os malditos, instáveis e até perigosos reatores reais.

É curioso, que após propormos nossos sistemas, nossos processos, como chamamos, os passamos aos engenheiros mecânicos, que confiando em sua absoluta desconfiança, onde poderia se operar com uma parede de aço de 5 cm, ou parafusos de 12 mm, colocam paredes de 10 cm e parafusos de 25 mm, pois eles sabem, perdão pelos termos, "que merda acontece", e normalmente, muita, ainda mais, que pode acontecer crescentemente no tempo. Os equipamentos projetados pelos engenheiros mecânicos, normalmente, são colocados sobre estruturas dos engenheiros civis, que utilizam os mesmo critérios, quase paranóicos, ali em cima citados, de pilares, vigas e lajes.

Os loompa-loompa da ciência são seres paranóicos por sua própria natureza, admito, mas infelizmente, o mundo gira ao redor de nossos esforços, inclusive, o de produzir agradáveis cereais matinais com alto teor de fibras adequados a quando Sheldon fica estressado.


Engenheiros, invariavelmente, cercando algum empresário.

BAZZINGA!

3 comentários:

Bruno C. Rodrigues disse...

Francisco, já leu o livro do Marcelo Gleiser - Criação imperfeita? Queria muito ver algumas considerações críticas sobre o livro dele. Algumas questões colocadas no livro dele não são de meu gabarito, ou seja, não entendi patavinas de nada.Abço.

Anônimo disse...

Hahhaha, adoro o programa, porque me faz lembrar meu tio, físico.
Com grata surpresa vejo que foste aluno dele, o Willy Engel!!
Abraços Bárbara Engel

Anônimo disse...

Também fui aluno do Mestre Willy Engel na PUC/RS. Aulas inesquecíveis. Ele tinha razão em nos exigir ao máximo. Luís Andrade